Último dia em Gramado destacou obesidade, atividade física, saúde emocional e segurança dos atletas. Simpósios de Especialidades ampliaram as discussões sobre reabilitação, inteligência artificial, nutrição e diabetes.
A importância de prevenir doenças cardiovasculares em todas as fases da vida, os benefícios da atividade física e a necessidade de identificar precocemente os fatores de risco marcaram o encerramento do Congresso SOCERGS 2026, neste sábado, 26 de setembro, no Wish Serrano Hotel & Centro de Convenções, em Gramado. Promovido pela Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio Grande do Sul (SOCERGS), o encontro encerrou sua programação principal pela manhã e deu continuidade às atividades com os Simpósios de Especialidades ao longo do dia, reunindo diferentes profissionais da saúde em torno de uma abordagem integrada do cuidado cardiovascular.
Obesidade e atividade física
Entre os temas apresentados, o cardiologista Dr. Luciano Ceolin Rosa abordou as recomendações da nova Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, elaborada por cinco sociedades médicas. O documento reforça a importância do tratamento da obesidade para prevenir complicações cardiovasculares, especialmente a insuficiência cardíaca.
“Uma das recomendações importantes é que pacientes com obesidade grau 3, mesmo sem diagnóstico de insuficiência cardíaca, devem ser considerados de alto risco e receber tratamento adequado. A diretriz reconhece a gravidade dessa condição e a necessidade de uma abordagem precoce para reduzir o risco de complicações cardiovasculares”, explicou o cardiologista Dr. Luciano Ceolin Rosa.
O especialista também alertou para os cuidados nutricionais durante o tratamento com medicamentos como semaglutida e tirzepatida. A perda acentuada de peso pode comprometer a ingestão de proteínas e outros nutrientes, aumentando o risco de perda de massa muscular. Por isso, o acompanhamento nutricional e as mudanças sustentáveis no estilo de vida devem fazer parte do tratamento.
Os benefícios e os cuidados necessários durante a prática esportiva também receberam atenção. O cardiologista Dr. Rodrigo Bouglex apresentou dados segundo os quais a atividade física regular pode reduzir em até 50% o risco de doenças cardiovasculares, diminuir em 19% a mortalidade por todas as causas e aumentar a expectativa de vida em seis a sete anos.
“Existe um paradoxo na cardiologia do esporte. Embora o exercício proteja o coração, atletas apresentam risco de morte súbita 2,8 vezes maior durante a prática esportiva em comparação com não atletas. O exercício intenso não é a causa, mas pode funcionar como gatilho em pessoas com alterações cardíacas preexistentes, provocando arritmias graves e até morte súbita”, explicou.
O especialista reforçou a importância da avaliação cardiológica antes de iniciar atividades de alta intensidade, especialmente para pessoas com fatores de risco ou histórico familiar de doenças cardíacas.
Saúde emocional também exige atenção
A relação entre saúde emocional e cardiovascular esteve entre os assuntos da programação. A cardiologista pediátrica Dra. Soraya Kalil destacou a importância de observar mudanças de comportamento e sinais de tristeza nas crianças, que podem estar relacionados a situações difíceis vividas no ambiente familiar.
“A criança demonstra muito o que está sentindo. Diferentemente do adulto, ela não consegue disfarçar tão facilmente suas emoções. Por isso, o pediatra precisa ter esse olhar mais atento, investigar o que está acontecendo e dar espaço para que a criança e a família possam falar. Esse cuidado deve ser integrado, envolvendo pediatras, cardiologistas e toda a rede de apoio”, ressaltou.
O cardiologista Dr. Marcelo Rava abordou os efeitos positivos da atividade física sobre a saúde mental e o equilíbrio emocional. “A atividade física atua naturalmente sobre neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, que também são alvos de medicamentos utilizados no tratamento da depressão. O exercício ajuda a regular esses mecanismos, contribuindo para a melhora do humor e do bem-estar emocional”, explicou.
Segurança nas corridas e prevenção da morte súbita
A segurança dos praticantes de corrida e de outros esportes de resistência ganhou destaque nas apresentações sobre cardiologia do esporte. O cardiologista Dr. Ricardo Stein apresentou dados sobre paradas cardíacas durante maratonas. Segundo estudo abordado no congresso, a letalidade entre corredores que sofreram parada cardíaca caiu de 71%, no período de 2000 a 2009, para 34%, entre 2010 e 2023, resultado associado ao maior acesso à desfibrilação.
“É importante frisar que a chance de sobrevivência diminui de 7% a 10% a cada minuto de atraso na desfibrilação. Assim como os neurologistas dizem que tempo é cérebro, na parada cardíaca, tempo também é coração. Por isso, o acesso rápido ao desfibrilador e o atendimento imediato são fundamentais para salvar vidas”, ressaltou.
A cardiologista Dra. Luiza van der Sand destacou a importância da avaliação antes da participação em atividades esportivas, incluindo a ergoespirometria, exame que permite analisar a resposta do organismo ao esforço físico.
“A ergoespirometria fornece informações importantes sobre a capacidade funcional do atleta, incluindo o consumo máximo de oxigênio, os limiares ventilatórios e a recuperação da frequência cardíaca após o exercício. Esses dados ajudam a individualizar a prescrição do treinamento e a avaliar a resposta do organismo ao esforço”, explicou.
O cardiologista Dr. Rodrigo Bouglex Aló também abordou as adaptações cardíacas provocadas por esportes de resistência, como corrida de longa distância e ciclismo. Segundo ele, é necessário diferenciar as alterações fisiológicas decorrentes do treinamento de possíveis doenças cardiovasculares.
“O treinamento de endurance produz um amplo espectro de adaptações cardíacas. Quando surgem dúvidas, é fundamental realizar uma investigação estruturada, com exames como ecocardiograma, ressonância magnética cardíaca, Holter e teste ergométrico, antes de decidir pela restrição ou liberação do atleta”, ressaltou.
A prevenção também esteve presente na apresentação de Mariana Dieri, representante da organização não governamental Corre com o Coração. A iniciativa trabalha pela conscientização, prevenção e diagnóstico precoce de doenças cardíacas em jovens atletas e praticantes de esportes. Na Maratona Internacional de Porto Alegre de 2026, a organização reuniu mais de 130 voluntários e disponibilizou 42 desfibriladores, um por quilômetro do percurso, além de oferecer treinamento prévio às equipes.
“Quando vamos viajar, levamos o carro à oficina para verificar se está tudo bem. Por que não fazemos o mesmo com o nosso corpo antes de submetê-lo a uma atividade física intensa? O sedentarismo é muito mais prejudicial, mas precisamos praticar esportes com segurança. Desde que começamos o projeto, percebemos um aumento na procura por cardiologistas e exames preventivos. Já recebemos relatos de pessoas que, depois de conhecerem nossa história, buscaram uma avaliação e descobriram problemas cardíacos que desconheciam. Saber que conseguimos salvar vidas por meio da informação e da prevenção mostra que nosso trabalho está fazendo a diferença”, relatou Mariana Dieri.
Simpósios de Especialidades ampliam as discussões
A programação dos Simpósios de Especialidades, realizada ao longo do sábado, reuniu profissionais de diferentes áreas para discutir reabilitação cardiovascular, inteligência artificial, alimentação, saúde mental e prevenção do diabetes.
O fisioterapeuta Giuliano Gardenghi defendeu uma abordagem da reabilitação cardiovascular que considere não apenas os resultados clínicos, mas também a percepção do paciente e sua qualidade de vida.
“Não adianta dizer que a reabilitação faz bem se o paciente continua se sentindo mal. Precisamos saber se ele apresenta menos sintomas e consegue atingir suas metas. Associar os resultados clínicos aos objetivos do paciente é fundamental para uma saúde sustentável”, afirmou.
A enfermeira Emely Siqueira apresentou as possibilidades de utilização da inteligência artificial na enfermagem, especialmente para reduzir tarefas administrativas e ampliar o tempo dedicado ao atendimento dos pacientes.
“A empatia e o cuidado são nossos. A inteligência artificial vem para nos ajudar, permitindo que tenhamos mais tempo de qualidade à beira do leito e menos tempo na frente do computador. A tecnologia é uma ferramenta, mas o profissional continua sendo fundamental”, destacou.
Na área da nutrição, a nutricionista e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Gabriela Corrêa Souza, abordou os desafios para reduzir o consumo de sódio, destacando a influência da indústria alimentícia e a importância das políticas públicas na promoção de hábitos saudáveis.
“A indústria tem uma força muito grande. Podemos adotar medidas nos municípios, mas a população continuará comprando os alimentos disponíveis no mercado. Por isso, precisamos fortalecer nossas entidades profissionais e atuar junto aos governos federal, estaduais e municipais”, afirmou.
A psicóloga Camila de Matos Ávila abordou os efeitos do estresse crônico e do esgotamento profissional sobre a saúde física e mental, chamando a atenção para a necessidade de reconhecer os sinais de burnout.
“O burnout envolve despersonalização e baixa realização pessoal relacionada ao trabalho. É um estado de esgotamento emocional, mental e físico, provocado pela exposição crônica a situações de elevada exigência emocional no ambiente profissional”, explicou.
Diabetes e sedentarismo representam desafios para a saúde pública
A prevenção do diabetes também integrou a programação. A profissional de Educação Física e pesquisadora Fernanda Dias Massierer apresentou dados que apontam para 11,4 milhões de brasileiros com a doença, relacionada a 68 mil mortes no país.
“O diabetes tipo 2 representa 94% dos casos no Brasil. As projeções apontam que o número de pessoas com diabetes poderá chegar a 37,2 milhões no país até 2050”, destacou a pesquisadora.
Segundo estudo publicado na revista científica BMJ Open, apresentado durante a atividade, a inatividade física é o terceiro maior fator de risco modificável para o diabetes tipo 2, atrás do índice de massa corporal elevado e dos riscos alimentares. No Brasil, 47% da população não atinge os níveis mínimos recomendados de atividade física. O estudo projeta que 3,7 milhões de novos casos da doença, equivalentes a 11,7% do total previsto entre 2026 e 2050, poderão ser atribuídos à inatividade física.
Conhecimento científico e cuidado integrado
O encerramento do Congresso SOCERGS 2026 reforçou a importância de integrar diferentes especialidades na prevenção, no diagnóstico e no tratamento das doenças cardiovasculares. As discussões evidenciaram que os avanços tecnológicos e as novas possibilidades terapêuticas precisam caminhar ao lado da atividade física segura, da alimentação adequada, da atenção à saúde emocional e do acompanhamento individualizado dos pacientes.
Redação: Marcelo Matusiak














